quarta-feira, maio 09, 2007

Do que gosto

Gosto do Sol, do calor da praia ao entardecer num dia de Verão, gosto de petiscos, sardinhas e de saladas, de pão alentejano, da paz do campo, de uma pequena casa no meio de um monte, gostava de ter um cão, gosto de lareira, de vento, de ar puro, claro, fresco, cristalino, gosto de riachos e de rios de montanha, gosto de água fria, gosto de pedras, de formas e de cores nas nuvens, dos céus de Outono, do nascer da Lua cheia no horizonte do Alentejo da minha infância, ah que luas magníficas, enormes, laranjas e da Vénus, a estrela da tarde, de um céu que se enche de estrelas.

Gosto do cheiro da noite, gosto de cheiros, de ervas, de urze e de alfazema, de comida boa ao lume, de um bom vinho, de amigos, adoro ter amigos, companhia, conversa, companheira e dos teus olhos, da tua pele e do teu cheiro. Gosto do teu riso, da tua troça, do teu sorriso de esperança e da certeza que leio neste encontro.

Amo a Paz, o Amor, a minha Mãe, os meus filhos e as mães dos meus filhos, os meus amigos, os companheiros de caminho como tu, companheira, que me abriste novos caminhos quando falávamos do Caminho. Adoro rir, brincar, fazer amor, ler, cozinhar, um bom copo, um fuminho, passear sem destino, aventura, viagens, montanha, silêncio, andar de mão dada, cumplicidade, intimidade, conversar sem palavras. Adoro livros, cartas de Tarot, do I Ching, de praticar Fung Shui, Aikido, Tai Chi. Amo Astrologia, mitologia, lendas, contos, mistérios e mulheres.

Gosto de ser homem, de ser activo, imaginativo e inventivo. Amo a Beleza, a rectidão e a Verdade.
Não gosto do contrário! Mas em particular, da grosseria, da falta de qualidade, da falta de imaginação, de rotina, do derrotismo. AMO A ESPERANÇA, detesto mau carácter, mau hálito, mau olhado, inveja e mesquinhez e burrice. Detesto trânsito, confusões, barulho, exibicionistas, materialistas, consumistas e almas danadas.
Amo a tua Alma!

terça-feira, maio 08, 2007

Tudo o que não fui


É infinita a esperança. Desde que me lembro, espero: coisas, objectos, lugares, pessoas. Na finitude da minha vida cronometrada pelo relógio biológico, não sei que idade terei, já que os segundos são mais lentos ou mais rápidos de acordo com a escala a que nos situamos. A formação, maturidade e morte de uma célula é uma vida em si mesma com a duração e os dramas que nós à escala humana reconhecemos à nossa vida, para aí setenta ou oitenta anos, os que vierem depois são bónus. São breves os minutos das células, minúsculos e insignificantes à nossa escala, imensos e decisivos à escala das bactérias ou dos vírus que são quase coisa, situando-se bem abaixo das células na escala que vai do quark às constelações de galáxias, o mais vasto agrupamento de matéria a que conseguimos dar nome. Suspeito que a escala vai por aí fora a dimensões cada vez mais impensáveis, para as quais já não há adjectivos nem superlativos e onde a palavra colossal é tão pequena e tem tão pouco significado quanto a palavra milímetro.
Porque conseguimos reconhecer as células e as respectivas organizações e especializações que nos compõe e não os vastos agregados estrelares, suspeito estarmos mais perto da insignificância dimensional que da colossalidade sideral. Nada de confusões: eu tenho uma escala muito respeitável composta de biliões de células, (ouço sempre estimativas fantasistas que vão dos milhões aos triliões, na verdade, acho que ninguém sabe…). Sou mesmo um pequeno universo para aquelas partículas todas, gozando de uma identidade e de um auto-conhecimento, uma espécie de sistema operativo complicado tipo ultra-Windows, a que chamo consciência, voz de Deus, super-ego, guia ou Mestre. Essa consciência dá-me a conhecer a minha finitude, fragilidade, perecibilidade e morte. Ela também me permite acreditar que parte das respostas estarão nos outros ou poderão ser acordadas por acontecimentos externos depois de internalizados, apropriados por mim. O paradoxo está em que é esta minha parte essencial, superior, “divina”, que me dá a conhecer a minha limitação e morte.
Como Deus não pode morrer, sob pena daquela voz a que chamo “eu” desaparecer e eu já não ser, a mente quer resolver o problema pondo a resposta dilacerante em espera, enquanto faz o processamento da informação que vai coligindo, tornando-se cada vez mais paradoxal, extremada, contraditória, esquizóide e dual.
Por isso toda a vida esperei. A ampulheta que tão significativamente o windows propõe de origem para as funções de “espera aí, estou a processar a informação” é o símbolo universal da finitude e por esse facto do tempo.
Tempo e espaço são dimensões lineares completamente correlacionadas que uma vez transcendidas passam a ser insignificantes, entrando numa outra dimensão onde existe um “hiper-espaço” que por sua vez define um “hiper-tempo” correlacionadas por dimensões “hiper-lineares” às quais por comodidade chamamos, matematicamente, complexas. É um bocado como andar de avião: enquanto estamos no chão, antes de descolar, a escala das coisas está intimamente correlacionada: olhando pela janela, se estivermos sentados do lado da janela, imaginemos por instantes que assim é, vemos ao longe os edifícios da gare do aeroporto, as mangas onde os aparelhos estão acostados, permitindo o acesso de passageiros. Vemos diversos equipamentos, máquinas e veículos, além do pessoal de operação de placa, de abastecimento, manutenção, bagagem, segurança e outros, em torno dos diversos aviões, vários nas dimensões, nas cores, bandeiras e companhias aéreas. Conseguimos, ainda assim apreender o todo nas suas diversas organizações espaciais, o aeroporto como um todo em relação à cidade onde nos encontramos, as pistas e os diversos aviões que só vemos parcialmente, mas que a mente, tendo pontos de referência, constrói imediatamente modelos, por forma que se por acaso tivermos acesso a partes que antes estavam escondidas não nos causa estranheza, antes a confirmação mental que assim era esperado ou, se antes desconhecido, rapidamente integrado como um novo elemento no todo conhecido com as distâncias respectivas ao nosso avião de que só vemos parte do interior, pelos diversos enfiamentos que estejam livres, o espaço entre os dois bancos da frente que nos dá campo de visão até às costas dos bancos que estão situados à frente desses, com as mesinhas presas nos trincos rotativos de plástico cinza e um autocolante com dizeres de segurança em duas línguas, do tipo “Na descolagem e aterragem as mesas e as costas das cadeiras devem estar na posição vertical, presas com o fecho de segurança e o cinto de segurança apertado”, igual ao que vemos na mesinha que está presa no banco da nossa frente e que nos servirá de suporte para o tabuleiro do almoço, agora na posição de segurança. Apercebemo-nos do tecido azul, semi-sintético de trama e textura médias, nem como um lençol, nem como um saco de serapilheira, mais quente que frio, neutro por definição, que vemos muito aumentado à frente dos nossos olhos, parede aparente deste universo finito. Para a direita está a janela, incrustada na parede cinza ou creme muito clara, antes é branca levemente acinzentada percorrida por linhas finíssimas que fazem pequenos motivos entrelaçados e regulares, que se vêm logo terem sido desenhadas por engenheiros projectistas num estirador alto e com regulações múltiplas e réguas em T, se o avião for velho, ou em moderníssimos computadores com programas de desenho sofisticados, 3D e CAD, pelos mesmos engenheiros agora já não tão tradicionais, nos aviões mais recentes, mas estão lá sempre, finas linhas que percorremos com os olhos e que rapidamente se perdem pela parede concava lateral interior do aparelho, sem sentido e os olhos já sem capacidade de resolução e separação de linhas tão finas, a mais de 1 metro de distância. Fixamo-nos na janela, no rebordo em plástico que a veda para aquela parte, entre esta de plástico de protecção transparente e a verdadeira de vidro espesso e isolada à pressão, levemente riscada na parte exterior, sempre com condensação e gotículas de água. Porque está riscada? Abrasão, erosão, desgaste provocado pelo ar, fuligem das turbinas, apenas pó? Vejo pela janela parte da asa do avião e os rebites que seguram as diversas placas de metal ajustadas com precisão. Depois da asa um pouco de pista, relva, sinais das diversas entradas para as pistas de aterragem e de descolagem, luzes que marginam as mesmas pistas e o aeroporto que a minha mente antes reviu, lá está dando uma ilusão de segurança. Ainda cá estamos e já não lá estamos, é assim um limbo confinado num charuto metálico com asas e motores, que ouvimos em funcionamento, num silvo agudo e crescente, aumentando a rotação das turbinas mesmo antes de largar pela pista fora numa louca correria que o ar irá amparar como a mãe segura a manta com que se aconchega o bebé antes de lhe pegarmos ao colo. Os lemes de profundidade e as asas recebem este amparo do ar, erguendo o corpo do avião da terra, enquanto os motores rugem ao máximo forçando o ar mais depressa a tornar-se como um sólido que nos segura e nos ampara, levando-nos para outra dimensão onde rapidamente todas as nossas distâncias se perderam numa abstracção lá longe em terra. Olho para cima e para o lado. Em cima as regulações do ar, a luz de leitura e o botão para chamar a empregada, a qual nos aviões se chama hospedeira, num eufemismo pudico, burguês e muito século XX. Percebo pelos rangidos que os compartimentos para bagagens, sobre as nossas cabeças, vão cheios, penso por um segundo que poderão abrir-se e tudo derramado, caído, pessoas magoadas, etc., apago a essa imagem, incomoda-me pensar em parvoíces, digo eu, mas já vi na volta de Cabo Verde o avião da TAP que aterrou em Lisboa de forma mais violenta, dois saltos na pista e travões a fundo, a pingar aguardente, lá chamam grogue, que por completo enchia os compartimentos de bagagem, não havia passageiro que não trouxesse o seu garrafão para Portugal, e com a secura e sacudidelas da aterragem, partiram-se derramando o líquido com cheiro acre e incomodativo, pelas frinchas da bagageira, nas nossas cabeças e ombros, nós os passageiros sentados nas coxias, empapando-nos de grogue, numa espécie de orgia etílica colectiva e que tresandámos além da porta da gare, bagagem na mão, Lisboa fora.
Para o outro lado vejo o meu companheiro de viagem, nervoso e suado e além deles uma família na fila do meio com um bebé de colo que chora com o susto, a mãe que o consola, o pai que se firma na cadeira da frente, os dois filhos pequenos com ar assustado que estendem o olhar, um pela janela da esquerda e o outro pela da direita. Àquela corrida angustiada sobre o pista e àqueles segundos iniciais após a descolagem, segue-se um momento tranquilo de tomada de rumo e de nível, em que cada um se habitua ao seu novo estado de descolado, antes de atacar a subida para as alturas, acima das nuvens, nesses campos imensos, alvos e densos que são os prados de nuvens, de formas redondas, imensas, excessivas mesmo, com grandes volutas rococós, acima das quais só existe céu de um azul intenso, imenso, com vibração metálica que vai-se perdendo na altura das camadas da atmosfera superior, onde percebemos que o nosso planeta se esfuma em densidades cada vez mais rareficadas e o espaço intersideral começa, não é logo, ainda há muitas camadas, troposfera, cromo-esfera, magneto-esfera, o campo em volta da Terra que nos protege e por onde as partículas de alta energia entram, excitam, combinam e nos chegam. Aí chegados, o avião parece parado e os motores, a que já nos habituámos, transmitem apenas um ronronar metálico grave e a vida organiza-se a bordo em função da duração da viagem, fingindo que estamos num pequeno centro comercial, amarrados às nossas cadeiras: primeiro jornais e revistas, depois toalhinha quente para limparmos as mãos, aperitivo, almoço ou jantar, digestivo (se desejar), xixi, filme, ler, música, dormir, acordar, xixi, lavar a cara, sumo e lanchinho, duty free, arrumar e preparar para aterrar. Eu olho lá para fora longamente e às vezes entre o intervalo das nuvens a 27000 pés, consigo ver terra, uma ilha se formos sobre o mar, mas o resto esfuma-se. As estradas são finos riscos entre formas mais ou menos geométricas do terreno e as montanhas achatadas, os campos de cores diferentes delimitados por linhas de nível, numa combinação de retalhos de verde profundo, castanho-escuro, ocre, beije, outro verde, outro castanho, aqui e ali branco, laranja, roxos. Cidades inteiras do tamanho de um lenço, fábricas imponentes são apenas um traço, aldeias uma dúzia de pontinhos vermelhos, as pessoas já desapareceram a esta altura, bem como os carros, camiões e antenas de televisão. Penso: que insignificantes os nossos amores, os nossos dramas e tragédias de cada vida. Que pequenos os nossos sonhos, não se podem ver daqui, que é feito dos nossos problemas, das nossas dívidas, dos bancos que nos querem penhorar. Que importância tem isso, visto daqui? Note-se que a pé, por uma estrada, percorremos 5 ou 6 km num par de horas a passo mas essa distância na vertical, é suficiente para reduzir as nossas inquietações a uma espécie de torpor nostálgico e interrogativo. Estamos no hiper-espaço da nossa dimensão.
Imagino que outro espaço existe além da Terra, aquele que vemos nas fotografias tiradas dos satélites e naves que se afastam do planeta, com a nossa Terra reduzida uma bola de futebol azul, enquanto estamos na sua vizinhança, mas rapidamente um pequeno ponto perdido no espaço e nos confins da órbita de Plutão um ponto que só com poderosos telescópios se pode descortinar, engolida pela escuridão intersideral que afinal tudo envolve e só a luz das estrelas, a espaços, pode afastar. O universo é assim múltiplo, uma espécie de bonecas russas em que os vários espaços encaixam uns nos outros desde o muito pequeno ao muito grande, onde as dimensões só se podem comparar na mesma boneca ou camada. Nós, a humanidade, vivemos uns furos acima dos ratos e estes das baratas e estas acima dos virús mas não somos por isso uma praga menos infestante e exterminadora à nossa dimensão. Certamente que existem hiper-baratas no hiper-espaço respectivo e hiper-vírus hiper-grandes que as irão dizimar.
Por isso espero, com estoicismo, que as peças rodem devagar e que finalmente encaixem como as bonecas russas e que tudo faça sentido nesta e nas dimensões adjacentes, no antes e no depois, em pequenas sequências risíveis, mas que dão sentido à nossa pequenez, conforto aos nossos dias breves e luz nas trevas dos nossos medos, nas mil mortes antecipadas, secretamente desejadas mas sempre repelidas por um novo dia, um novo sonho e um novo amor.
A esperança é isso: vencer a noite, o escuro, o frio e tudo o que não fui, não disse, não soube, não senti e não amei. No fundo escuro do nosso poço, cheio de negrume, só a esperança, que é a luz do amor, existe.