Eu sinto a noite. No escuro, no recôndito. Onde tudo é mais escuro, frio indefinido e rígido. Há também distância, algo de intransponível nessa noite do meu sentir, de me comover. Acção do coração difícil, muito vigiada. Há olhos na noite, essa Lua é escura, baça sem brilho, mesmo cheia. Gélida o que ela é. Coro-a de palavras. Para não sentir para não ter medo para me segurar, e fazer brilhar o meu Sol que me dá calor e energia. A noite e o silêncio não têm palavras. Estranhos espíritos povoam a noite. Escolho os que fazem rir, desassustar, para não sentir, para não doer, para não morrer. Sou o faz de conta que sou todo assim, cheio de Sol. Porra, estou cheio de noite. A Lua, a minha Lua, está longe, faz-me morrer. Que sinto eu? Dor, solidão, negra, espessa, leve e fina. Alguém disse (uma mulher, claro): “dentro de ti corre um rio triste”. Não! Fui eu que disse (a uma mulher, claro): “Em mim corre um rio triste”. Solidão é um rio triste que, como as fases da Lua, corre mais ou menos manso, mais ou menos regato, engrossa, tumultua-se e, às vezes, só às vezes, deixa escapar uma lágrima, comovo-me num filme, com uma imagem, uma criança, uma paisagem. Gosto da Lua gloriosa na paisagem do Alentejo disse eu. Parece vir ao meu encontro, resgatar as minhas penas. Abro os braços e grito, vem! Inexoravelmente, passará a minguar até nova noite, negra, escura fria, o meu terror volta. Sabes, espero sempre a Lua, desde pequeno que a espreito e pergunto: quando brilharás?
Às vezes, não sei se por aspecto harmónico, se por trânsito de entidade benfazeja, suaviza-se a noite e fico bem. O lobisomem desaparece e fico eu, muito brilhante e harmónico. Pacificado com todos e agradecido.