Eu sinto a noite. No escuro, no recôndito. Onde tudo é mais escuro, frio indefinido e rígido. Há também distância, algo de intransponível nessa noite do meu sentir, de me comover. Acção do coração difícil, muito vigiada. Há olhos na noite, essa Lua é escura, baça sem brilho, mesmo cheia. Gélida o que ela é. Coro-a de palavras. Para não sentir para não ter medo para me segurar, e fazer brilhar o meu Sol que me dá calor e energia. A noite e o silêncio não têm palavras. Estranhos espíritos povoam a noite. Escolho os que fazem rir, desassustar, para não sentir, para não doer, para não morrer. Sou o faz de conta que sou todo assim, cheio de Sol. Porra, estou cheio de noite. A Lua, a minha Lua, está longe, faz-me morrer. Que sinto eu? Dor, solidão, negra, espessa, leve e fina. Alguém disse (uma mulher, claro): “dentro de ti corre um rio triste”. Não! Fui eu que disse (a uma mulher, claro): “Em mim corre um rio triste”. Solidão é um rio triste que, como as fases da Lua, corre mais ou menos manso, mais ou menos regato, engrossa, tumultua-se e, às vezes, só às vezes, deixa escapar uma lágrima, comovo-me num filme, com uma imagem, uma criança, uma paisagem. Gosto da Lua gloriosa na paisagem do Alentejo disse eu. Parece vir ao meu encontro, resgatar as minhas penas. Abro os braços e grito, vem! Inexoravelmente, passará a minguar até nova noite, negra, escura fria, o meu terror volta. Sabes, espero sempre a Lua, desde pequeno que a espreito e pergunto: quando brilharás?
Às vezes, não sei se por aspecto harmónico, se por trânsito de entidade benfazeja, suaviza-se a noite e fico bem. O lobisomem desaparece e fico eu, muito brilhante e harmónico. Pacificado com todos e agradecido.
As tentativas de voo de Birdie, o pássaro cego. Narrativas do que ouviu na tentativa de se evadir e o sexto sentido :)
quarta-feira, maio 07, 2008
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Mais angústias do tempo perdido
Tu que viste a Luz, que saltaste a Cerca, que quebraste as Cadeias, que leste o Livro, que ouviste o Segredo, que sentiste o Frémito, que provaste a Taça, que chupaste o Sal, que lambeste o Mel, que abraçaste o Ar, porque não VOAS?
Salta, agora, salta. Vai em frente, o portão aberto, o cão dorme, o guarda ronda por outra parte. Agora tens de saltar. Abre os braços em chama e arde no espaço que te resguarda, amortalha e leva, para fora de ti, além de ti, apesar de ti.
Imortalmente espero.
Aqui virás cedo ou tarde, aqui virás. A voar ou aos trambolhões, inteiro ou aos pedaços, lúcido ou iludido, por tua vontade ou empurrado.
Estaremos sempre aqui à tua espera oh pássaro cego!
Salta, agora, salta. Vai em frente, o portão aberto, o cão dorme, o guarda ronda por outra parte. Agora tens de saltar. Abre os braços em chama e arde no espaço que te resguarda, amortalha e leva, para fora de ti, além de ti, apesar de ti.
Imortalmente espero.
Aqui virás cedo ou tarde, aqui virás. A voar ou aos trambolhões, inteiro ou aos pedaços, lúcido ou iludido, por tua vontade ou empurrado.
Estaremos sempre aqui à tua espera oh pássaro cego!
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