segunda-feira, fevereiro 23, 2009

A alma aos pedaços

Há tudo para escrever e rescrever.
Reparo agora que tenho andado ausente da escrita, do registo dos meus passos, como se na minha mente todos se confundissem num só, como a praia quando junta as milhares de pegadas num dia de verão e num só amasso, vemo-la palmilhada ao fim do dia, sem podermos dizer a quem corresponde o quê, em qual direcção, se a pé devagar ou a correr, se amantes enlaçados ou velhos com cadeiras de descanso, tudo é uma coisa só.
Estou assim, não destrinço os meus passos, todos me levam numa direcção, para onde não saberia dize-lo. Até porque há a noite, sobe a maré e desses passos nem sombra, provavelmente não existem, já passaram ou nem tiveram importância.
De manhã, de novo, uma praia para palmilhar, novos registos de novos passos que, no final do dia, de novo se confundirão. Parece que o milagre é haver amanhã, depois de acharmos que nada mais temos para acrescentar, eis que temos mais 1440 minutos fresquinhos e de borla, um novo dia para aproveitar.
Não é verdade que não tenha nada para partilhar: há milhares de pedaços de mim espalhados pelos areais, mil converas, mil visões, mil pensamentos e emoções, dispersos e sempre renovados. Eu tenho a impressão que já o dissera mas sempre me aparecem como novos.
- Então novidades? perguntam-me os amigos. Cá estou, cá vou, digo eu.
- Mas já voas?
- Tento. Parece que sim, mas é em círculos, ou elipses ou em curvas fechadas de regularidade incerta. Todos os dias voo mais um bocado.
- E já viste a Luz?
- Em mil bocados dispersos na minha alma. Acordo de manhã e só tenho vestígios. Começa sempre tudo de novo.
Cai a noite outra vez. Sei que a memória me vai falhar imersa no Oceano escuro. Inquieto volto ao ninho guardando o dia em luz na alma, mas amanhã não me lembro.
Tanto para contar e já me esqueci.