terça-feira, maio 04, 2004

Mas onde é que andaste?

Pois não sei... nem tens nada a ver com isso. Ausentei-me, pronto! Queres que te diga que fui comprar cigarros? Como não havia a marca que eu queria fui ao próximo kiosk e, indo de que kiosk em kiosk, fui ali e já vim só passaram TRÊS MESES E JÁ ESTÁS A CHATEAR, PORRA!
Voltei. Isso te deveria bastar para te consolar, para te alvoraçar, para renovar e te encher de júbilo, de alegria, de festa e de prazeres antegozados na noite das nossas núpcias renovadas. Sabes foi do café. Foram as borras cheias de ADN magnífico, de cogumelos microscópicos, que me deram esta facilidade de me transmutar e, sem saber, fugir ao tempo e inscrever-me numa oitava mais alta onde o tempo não é tempo é devir. Devim (estou assim, pró-núncio, praetor, invento e autorizo novas palavras, aguenta-me...). Arre, já não se pode dizer nada, dizia devim e já estás cheia de caretas e juízos omissos nessa caixinha de pirolitos a que chamas cabeça. Devim, dizia, outro. Sou outro. Adeus birdie, adeus prisões, voei livre e incorruptível no espaço sidério, num voo picado para lá de Urano, deixando-me atrair pelo planeta dos confins, o imprescrutável Neptuno o astro sem limites, das ilusões e dos sonhos, da dissolução do ego e da alta espiritualidade. Por isso já não sou mais eu, sou outro que não quer mais saber quem é, conduzido pela vibração trans-sidéria onde todos nos encontraremos um dia.
Contudo a palpabilidade da escrita devolve-me este concreto da gaiola que não abre, desta prisão de pedras invisíveis que não posso derrubar a não saber por um esforço de abstração, ausento-me para dentro e fujo por aí, pelo poço que se abre por dentro, dentro do ser, escalando a muralha interna, afogando-me nas águas densas e escuras do meu inconsciente, onde todas as chaves estão depositadas, mas onde todas as portas não têm fechadura, abrem-se pela invocação de mantras arcaicos, pela vibração do canto, à minha passagem insensivelmente, escancaram-se para outros planos e realidades, transmutáveis e perenes, isso as caçadas eternas, as do índio americano, do índio maia, azteca ou atlante, os sítios sonhados e cantados nas lendas, terra dos deuses e dos homens-deus, os afortunados tocados na fronte por Afrodite, a filha da espuma do Oceano.
Desafoguei-me, saí do poço, voltei para aquele espaço entre a muralha de dentro e a muralha de fora, aquela que me separa dos outros e do mundo. Afinal não fui a lado nenhum, não te queixes, estive sempre aqui, ao teu lado, apenas sentado, calado, imóvel por fora, enquanto livre vagava noutra dimensão. Não podes vir comigo, apenas poderemos encontrarmo-nos nesse plano do impalpável e do onírico se sonharmos o mesmo sonho e nele nos enlaçarmos para uma nova encarnação. Talvez possamos transcender a pedra amando-nos. Senta-te ao meu lado e não chores. Une-te à minha respiração, inspira e expira comigo, lenta e pausadamente, canta o mantra e voa comigo. Apoia as tuas costas nas minhas, vê se arranjas duas almofadas senão ficamos com os rabos dormentes, apoia-te em mim, endireita a cabeça e toca-me: a tua respiração embala a minha, o teu calor envolve o meu, a energia corre pela kundalini e abre a flor na coroa, abre-se o poço interior, abre-se o lago tranquilo, o rio interior que nos leva do Hades para fora, por algum tempo como Perséfone, para o campo dos deuses, dos cantares e do hidromel. Bebamos e cantemos, alegremo-nos: somos livres.

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