Dormi como um pássaro. Quer dizer às escuras e a despertar com cada bater de coração, assustado comigo mesmo. Horrível. Não consigo um sono pesado como o do cão que por aqui anda a rondar-me. Acho que ele também é cego porque só me cheira, rosna mas não me acerta. A minha técnica consiste em voar directamemte em direcção às fauces pestilentas que ele inevitavelmente fecha no momento errado. É uma besta. Eu também não sou melhor e só consigo bater as asas meia dúzia de vezes até acertar em qualquer coisa que não sei bem o que seja porque está TUDO sempre a MUDAR de lughar. Sim, de lughar, não lugar como seria razoável esperar em português aprendido nos bancos da escola da Dona Cristina, que o Senhor a guarde em boa memória, mas lughar tal como a minha recente transmutação de pessoa em pahssaro. Porque quero que me entendam aqueles de vós que por tédio ou desespero, eventualmente por busca de uma revelação nestas palavras escritas na mais absoluta escuridão, este novo Lovecraft, nesta Providence de todos os mistérios, escrevo pássaro sem o H que lhe é devido sinal, insígnia, runa salvífica, sinal de transmutação.
Há outra razão: se for aprisionado neste combate entre as trevas e a Luz (e não o inverso, como poderiam constatar se houvessem a mercê de comprovar o espesso negrume da masmorra fétida onde me encerraram), dizia se for aprisionado, não poderão reconhecer a minha patente nem origem, pondo-me ao abrigo das sevícias que, no meu horror, imagino pior que as japonesas em tempo de crueldade. Portanto referir-me-ei a mim mesmo como pássaro, sabendo que sou um pahssaro, h para os íntimos (nesta desventura talvez o cão das fauces podres).
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